5 de Outubro de 2004 O Vespertino de Reading CRÓNICA 31
A Loucura - Fotografia de Rui Gonçalves

Disfarces

Ontem, num momento mais pessoal, li o artigo, desta semana, da revista do The Observer, da Barbara Ellen. Desde que li esta coluna pela primeira vez, há uns meses, que passei a lê-la quase todas as semanas. Aliás o The Observer passou a ser o meu jornal semanal, aqui na terra dos Labours e Tories.

Mas, no artigo em questão, a tipa crítica a vida de escritório. Porque trabalha em casa e trabalha quando quer, pode criticar quem, para ganhar a vida, obrigatoriamente tem que estar, diariamente, num escritório das 9 às 5. Mas ela própria reconhece que trabalhar em casa tem as suas desvantagens, porque ninguém olha para o tempo que se trabalha, mas para o que se produz, e obriga a alguma autodisciplina. Por outro lado nos escritórios as pessoas gastam mais energia a parecer que estão ocupadas do que a ocuparem-se a trabalhar.

Aqui, como em quase todos os escritórios, passa-se o mesmo. Mas, eu tenho dificuldade em parecer ocupado. Faz-me mal não ser honesto. Se estou ocupado é porque estou ocupado, se não estou é porque não me dão com que ocupar, ou se me dão e não estou tão ocupado, é porque o que me dão para me ocupar não está bem delineado. Ou seja, resumindo, se não estou ocupado é porque não me dão com que ocupar. E eu ocupo- me com as minhas coisas. E não escondo, como toda a gente faz em todo o lado. Uns reduzem a janela do Internet Explorer até meio do écran, tapam com o tronco sentando-se direito e outros carregam papéis para trás e diante enquanto conversam sobre a vida dos outros.

Na sexta-feira [1 de Outubro de 2004], no lançamento d'O Vespertino de Reading, perguntei ao Matt W. se ele não se sentia observado no lugar que ocupo agora e que era o dele até há umas semanas atrás. O lugar é virado para a janela, porém o monitor está virado para o corredor e toda a gente vê o que estou a fazer. O Matt só me disse que a quem tinha que reportar, reportava o trabalho que fazia e que os outros não interessavam. Mas para não dar muito nas vistas punha as janelas a meio écran e usava o ALT-TAB, para saltar aplicações, se aparecesse alguém.

Acho que tenho que mudar a maneira como me ocupo com as minhas coisas, para não dar tanto nas vistas! Mas isso põe-me nervoso... Não gosto de andar a enganar ninguém, mas parece que aqui andam todos a enganarem-se uns aos outros. Era um desabafo!

Mas voltando a sexta-feira, a noite começou no Cafe du Sport, aqui em Reading. Afinal o The Horn era muito pequeno para conter todos os convidados e assim fomos para um bar maior. Da mais de meia centena de convivas, destacavam-se aqueles que trabalham comigo, porque os outros nem conhecia (nem sei quem os convidou). Não éramos muitos, e tirando os portugueses, ninguém sabia (e nem sabe) da existência d'O Vespertino. Estavam lá para se divertir.

E como trabalham todos no mesmo escritório e todos fazem de conta que trabalham, todos sabem da vida dos outros. Até eu sei! É a fulana que é divorciada, vive com o namorado e anda ali a roçar-se naquele fulano que é casado e a mulher espera o segundo filho. Ou a outra, que namora com um polícia e como ele está sempre de serviço tem necessidade de falar com todos os homens da sala. Ou aquele estagiário que leva duas secretárias bêbadas, numa sexta-feira à noite, a discutirem a ver que é que tem o privilégio de o tentar levar para casa. E ele vai sozinho! A vida na província é assim... Complicada!

Bebemos uma pint no Cafe du Sport, onde chegámos (eu e a Cláudia) tarde (22:00) depois de termos feito mais de 50 quilómetros para ir a outra aula de Kundalini Yoga e jantado. Era noite de promoção de uns shots irlandeses já prontos a beber, nuns copos esquisitos e que davam prémios. Eu ganhei uma T-shirt e uma dor de barriga para o dia seguinte, no primeiro shot.

Estava na hora de mudar de ares e fomos para o Fez. Um club, aquilo que nós chamamos de discoteca, mas com muito mais mau aspecto. 5 libras à entrada e 3 libras por cada cerveja. Mas que se lixe, só se vive uma vez! À 1h da manhã estava pronto para ir para a cama! Foi uma noite de loucura... Ganda maluqueira, deitar-me à uma!

No Fez, que é uma discoteca baseada em motivos Marroquinos (como se pode ver pelo nome) mas tão fidedigno que os espelhos estão partidos e está tudo um pouco arruinado. Quem estava também arruinado foi um tipo que, completamente a cambalear, veio ter comigo e perguntou-me se era "Español?". Sem dar grande confiança disse-lhe que não e ele voltou a insistir "Ah! Italiano?". Aí comecei-me a rir e disse para continuar a tentar. Ele tentou o "Turk"... Continua! Ele desesperado e já em tom de brincadeira disse "Iraki"! Aí não aguentei mais e disse-lhe que era português! Ele só me respondeu que lhe tínhamos ganho mas que perdemos, numa clara alusão ao Euro. Pelo menos fiquei a saber que não pareço inglês! Isto antes da meia-noite.

Outro dado curioso, foi o facto de um dos convivas que estava connosco, sendo paquistanês e, portanto, muçulmano, não tocou em álcool até à meia-noite. Supostamente estava no ramadão, mas o álcool é proibido de qualquer maneira, tanto quanto sei. À meia-noite e meia já dançava...

Quem dançava também, como se fosse o último dia da sua vida, era uma amiga da Su. Até podia ser a mãe dela, porque aparentemente era bastante mais velha que o resto do pessoal. De repente um outro tipo completamente bêbado, também como se fosse o último dia da sua vida, parou junto a ela, apoiado numa parede e a olhá-la dançar. De repente estavam a dançar e a conversar. Ele de repente tinha a mão na nádega dela e espetou-lhe um beijo. Ela agarrou na carteira, disse adeus à Su e foi-se de mão dada com o bêbado. Nunca vi um engate tão rápido na minha vida. Não cronometrei mas garanto que demorou menos que cinco minutos. Mas menos de cinco minutos depois ela estava de volta... Pelos vistos ela deve ter visto que ele estava num estado que não podia satisfazer os mínimos requeridos por ela.

É a vida na Inglaterra. Disfarça-se o dia todo, para depois à noite não se disfarçar nada. Com uma pint de cerveja pode-se fazer tudo aquilo que se quer. As barreiras caem todas e não há limites, nem que se tenha que pisar a liberdade dos outros. Mas aí aparecem os seguranças do bar para impor a ordem, como a um grupo de jovens que já estava de tronco nu na pista, depois de uma cerveja.

O problema foi o dia seguinte [sábado, 2 de Outubro de 2004]. Já estamos habituados a acordar cedo, mas a deitarmo-nos tarde (?) é que não. Foi um acordar difícil e uma tarde de preguiça. Vegetámos quase até à hora de ir para a churrascada em casa do Freddy, onde chegámos atrasados. Não chegámos atrasados, mas fomos os últimos a chegar.

A Cláudia pela primeira vez conduziu do lado esquerdo da estrada e à noite. Faz um bocado de confusão, mas mais umas lições práticas e já tá pronta a andar com o Besouro nas estradas desta terra do avesso.



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