D8 SEXTA-FEIRA, 30 DE MAIO DE 2003
Capacetes - Fotografia de Rui Gonçalves

Vou aproveitar aqui uma pausazita no trabalho e vou-vos pôr a par das novidades.

Estes japoneses são mesmo malucos. Acho que ainda não houve um dia que não trabalhasse menos de 12 horas e que tenha dormido mais que 5. Uma maravilha! Estou numa sala com cerca de 70 pessoas e com o ar condicionado a 28 graus, o que torna o ambiente muito agradável, uma vez que todas as pessoas aqui respiram, melhorando ainda mais as condições de trabalho. Além de respirarem, andam todos descalços e falam uns com os outros tão alto que qual semelhança entre isto e uma repartição das finanças em Portugal é pura coincidência.

Mas, mesmo assim, conseguem ser mais limpos que os franceses. Acho que o Thomas finalmente mudou de camisa, hoje. Vou contar quantas vezes ele a vai usar e depois digo-vos!

Mas, voltando ao local de trabalho, este sítio é apenas uma salita de cerca de 300 m2, onde respiram uma quantidade enorme de gente, disposta em filas de seis secretárias e de frente para mais seis, isto formando, portanto, seis filas duplas de secretárias. Depois há uma fila perpendicular a esta composição onde estão os chefes de fila. A hierarquia aqui é uma coisa muito importante.

Como normalmente entro por volta das 11h da manhã, não sei o que se passa antes, mas por volta das 12h começa a tocar uma música e vão todos almoçar à cantina ou comprar comida ao supermercado do complexo fabril da NEC. Eu não chamava isto uma fábrica, mas um aglomerado de escritórios, oficinas e afins de diferentes sub-empresas da NEC. Já cá vi desde desenvolvimento de software para o espaço até integração de RACs de comunicações para centrais telefónicas, mas acho que ainda não vi nada. As luzes apagam-se à hora do almoço e há quem deite a cabeça em cima da secretária, sobre uma almofada (carinhosamente guardada numa gaveta quando não está a ser usada) e dormem.

Aliás dormir é um ritual por estes lados, uma vez que eles passam tantas horas na empresa é-lhes difícil dormir em casa, pelo que dormem no comboio, na rua enquanto esperam pelo transporte, nos bares e no trabalho. Por sinal, por volta das 18h, volta a tocar uma música e muitos deles tiram a bela da almofada e vai de dormir um bocado em cima da secretária. O Victor contou-me que no outro dia foram a um bar por volta das 2h/3h da manhã e os clientes estavam todos a dormir. Acho que para a próxima vamos dispensar o hotel, uma vez que podemos dormir em bares.

Há vários sinais musicais durante a tarde. Um para lanchar, por volta das 17h quando o supermercado abre por um quarto de hora, um ou dois para espreguiçar e mexer as pernas (quem passa tantas horas a trabalhar precisa, não é?) ou dormir, mas o melhor de todos é um que há um bocado mais tarde, acho que cerca das 20h, quando uma tipa com uma voz muito meiga diz no seu belo japonês algo como: "A partir deste momento a empresa não vos está a pagar as horas extras que estão a fazer na empresa, pelo que não se devem sentir forçados a ficar." Lindo!!!

Há cerca de 2000 empregados neste complexo (embora já me disseram que são 8000, mas eu tenho dificuldade em acreditar), devem imaginar como é a cantina. Até se vendem sapatos, carteiras ou apartamentos à porta, dependendo do dia da semana.

Isto parece uma prisão labiríntica com máquinas de bebidas em cada esquina e num ambiente tipo Robocop/Mad Max. Para chegar da entrada até aqui esta sala tenho que andar cerca de 400m, por baixo de um edifício, atravessar um pátio, seguindo um corredor que atravessa outro edifício, passar na zona de carga e descarga e finalmente atravessar uma rua. Só ao fim de quatro dias é que me comecei a orientar e agora acho que já tenho uma ideia mais ou menos formada da localização deste edifício no complexo. Ah! À saída, depois das 22h, o caminho tem de ser outro, porque alguns dos edifícios estão já fechados.

Noutra crónica falo-vos das pessoas que me rodeiam e das com quem trabalham, todas de olhos em bico e com nomes ainda mais difíceis de prenunciar que Arestides Gumerzino. Só hoje já conheci um Tsotomu Yoshida, fora os Shionoyas e Kanayamas e companhia.

Aliás, os nomes nesta terra são algo do outro mundo. Aliás este país é um outro mundo... Um país onde se compra roupa numa loja chamada Konaka e anda-se num carro chamado Laputa, não é normal. Já vi um bar chamado "Alabian Nights" (não é gralha) e no meu hotel toma-se o "Monining Breakfast". Lindo!

Olha! Está a tocar a música para lanchar... Tenho que ir, pois tenho uma reunião às 18h.

Depois mando umas fotos aqui da prisão onde em todas as esquinas existem capacetes e bandeiras amarelas, para serem usadas em caso de acidente grave, tipo terramoto, e onde existe na porta um sinal onde estão marcados os dias que já passaram desde o último acidente acontecido no complexo (eu perguntei ontem ao Barin, pois nós dizíamos que eram o número de mortos).



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