QUARTA-FEIRA, 12 DE MARÇO DE 2003 D3
Ninho Ilha em Riaño - Fotografia de Rui Gonçalves

Arranjei o meu palmtop PC. Acho que posso começar a escrever de novo. Não sei até que ponto isto vai continuar, mas o tempo o dirá... Acho que depende de vocês também.

Comecei a escrever isto em Vila Real, pois a semana passada fui tio pela terceira vez e fui ajudar a minha cunhadinha a tomar conta da minha querida sobrinha Carolina, enquanto a recém-nascida Margarida ainda dá muito que fazer. Bem, se esta for como a Carolina, então o trabalho vai ser ainda maior quando crescer.

Mas voltando à semana passada. Na sexta [28 de Fevereiro de 2003] quando saí do trabalho e nos preparávamos para ir para o Porto para assistir ao concerto dos islandeses Sigur Rós, a Cláudia recebeu um telefonema da Di que acordava da anestesia do parto. Tínhamos sido tios. Foi uma emoção difícil de explicar, mas é sempre bom saber que temos mais alguém neste mundo em quem podemos depositar o nosso carinho e amor.

Partimos na mesma para o Porto e dirigimo-nos ao Coliseu. Quando entrámos a sala ainda estava meia composta e estava a tocar o projecto The Album Leaf que fez a primeira parte. Ainda assistimos a dois ou três temas, o último dos quais tocado com a ajuda de dois membros dos Sigur Rós, um na bateria e outro nas teclas. O som assemelhava-se em tudo à música dos islandeses, apesar do jovem me ter parecido ter vindo de San Diego, um local bem mais quente que a Islândia, país onde a música dos Sigur Rós parecia encaixar perfeitamente. Não que eu conheça a Islândia (ainda) mas a música deles tem algo próprio dos países frios do norte.

É bom voltar aos concertos. Acho que último que assisti, sem contar com os gratuitos e de bandas portuguesas, foi o do Moby ainda em São Francisco, há quase dois anos e meio. É bom voltar a sentir a emoção de ver a banda que gostamos e queremos ver e ouvir, a entrar em palco e presentear-nos com toda a sua força. Já não me lembrava como um bom concerto pode influenciar o modo como daí para a frente passamos a ouvir os discos daquela banda. Ou como um mau concerto pode significar o fim de uma banda no meu imaginário. Que digam os Smashing Pumpkins, que nunca mais tocaram nos meus leitores depois de um desastroso concerto no Porto que me custa a esquecer.

Mas voltemos aos Sigur Rós. É difícil explicar (está tudo muito difícil hoje em dia) a música destes islandeses que resolveram misturar a sua língua materna com o inglês e criar uma nova língua que usam e cantam nas suas canções. Sim, são canções, é um nome que eu não gosto de chamar à s músicas que oiço, porque acho que canções é um termo um pouco " pimba", simplista talvez. Mas no fundo "canção" é algo muito simples e isso que são as músicas dos Sigur Rós. Começam regra geral em tons muito suaves crescendo em loop até um clímax e acabam com a voz do vocalista cantando em falsete uma letra que em tudo se assemelha ao cantar de uma criança que não sabe a letra. Lembram-se quando tentavam acompanhar uma música e não sabiam a letra e tentavam dizer os mesmos sons que aquele vocalista naquela música que tanto gostavam e que cantava numa língua que não conheciam? Bem, é mais ou menos isso, mas ao contrário...

O concerto foi bom. Não diria muito bom, porque esperava mais calor da banda que acabou o concerto com duas vindas ao palco para com um grande Takk ("obrigado") a agradecer a prestação do público. Nunca dirigiram a palavra ao público, mas se calhar na Islândia é assim... Se for como na Finlândia! Mas surpreenderam-me, principalmente em alguns temas em que a bateria teve um papel muito importante e deu bastante energia que não esperava ver (ou ouvir). Além disso há que falar nos efeitos visuais, com imagens projectadas num ecrã por detrás da banda, com as suas sombras e canhões de luzes.

No final, lembrei-me de como já me tinha esquecido como era sair de um concerto, a cheirar a tabaco e sob uma série de empurrões. Uma bela maneira de comemorar o nascimento da Margarida e o voltar aos concertos. No entretanto já comprei os bilhetes para ver a Beth Gibbons dos Portishead com o Rustin'man.

No sábado [1 de Março de 2003] acordámos cedo e fomos até Vila Real ver as nossas queridas sobrinhas. Por vezes é difícil (outra vez) de acreditar que a natureza é assim tão generosa... A Margarida é um ser tão pequenino e tão bonita. Custa-me (mais uma vez) falar de um ser que ainda é tão pequeno e tão indefeso. Em breve será tão grande como a Carolina e será o terror dos pais.

Já saímos tarde de Vila Real. Ainda queríamos chegar a horas de ter luz à chegada às Médulas e conseguimos apesar de nos termos perdido em Ponferrada. Mas chegámos mesmo no pôr-do-sol…

O espectáculo não podia ser melhor. Nunca esperei ver uma paisagem semelhante no velho continente e ainda por cima com a luz do pôr-do-sol. Pena é que esteja um bocado abandonado, com pouca ou má sinalização e cheia de lama. Mas também não se paga…

Eu vou explicar o que são Las Médulas. Imaginem que os romanos há cerca de 20 séculos lembraram-se de arranjar uns 8000 escravos para escavar umas galerias numa montanha barrenta e que depois desviavam um rio e faziam a água circular pelos túneis desfazendo as paredes e fazendo desmoronar a montanha. Tudo isto para sacar ouro. E sacaram muito, consta que algumas 5 ou 6 toneladas deles. Acontece que quando a montanha deixou de dar ouro aos romanos, estes abandonaram a obra e os desmoronamentos continuaram, porque algumas galerias ficaram e hoje existe uma enorme cratera rodeada de paredes de barro castanho e galerias como nomes sugestivos como La Cuevona e La Encatada que têm alguns três andares de altura e que a UNESCO resolveu classificar como património da Humanidade. Tudo isto, logo do outro lado da fronteira de Bragança, ali nos montes de León. Vão lá...

Infelizmente fomos descobrindo os caminhos por entre os desfiladeiros e canyons artificiais, quase sem ajuda de mapas (apenas tínhamos um que sacámos de um site qualquer). E quando chegámos às paisagens mais deslumbrantes já o sol se tinha posto e frio apertava, mas mesmo assim ficámos com uma boa ideia do local e prometemos voltar no Verão e/ou no Outono, porque a zona está lotada de castanheiros e estes o Outono ficam com umas cores espectaculares.

Enlameamo-nos até aos joelhos, mas os problemas de trabalho já estavam longe e agora só pensávamos em chegar a Boñar para podermos comer calmamente antes de ir dormir. Foram muitas emoções juntas e condensadas no mesmo dia. Mas nos esperava no dia seguinte em Puerto de San Isidro onde íamos esquiar, eu pela segunda vez, mas para a Cláudia era uma estreia.

Mas que estreia. No domingo [2 de Março de 2003] de Carnaval nunca se devia pensar em ir esquiar para San Isidro e muito menos tarde. A verdade é que quando chegámos à estância de esqui a minha vontade era de voltar para a cama, tal era a quantidade de gente nos teleféricos, nos cafés, nos autocarros, a alugar esquis e até a passear. Mas se eu fiquei abananado a Cláudia ficou possessa, porque pouco tinha dormido.

Demorámos uma a duas horas a decidir o que fazer. Andámos para trás e diante e subimos no autocarro até à parte alta da estância, onde a enchente era ainda maior e onde a vontade de andar de esqui ainda se foi mais embora. Custava-nos a acreditar que houvesse gente tão desesperada em andar de esqui que suportasse estar naquelas filas intermináveis, para apanhar um teleférico, para depois descerem uma pista superlotada de gente, e que com um bocado de sorte até conseguiam descer sem baterem em ninguém, para depois voltarem para a fila.

Desistimos! Mas afinal tínhamos ido ali para andar de esqui e desistíamos? Não! Fomos alugar os esquis… Grande azar, já só haviam esquis para pessoas com mais de 1,80m… Ainda estou em crescimento mas ainda não cheguei a tal ponto, e para quem está a começar, esquis grandes não ajudam muito. Fomos beber uma cerveja.

Os bares e cafés da estância estão à altura da mesma. Um nojo que até custa a compreender que não estamos em Portugal. Estou a brincar, porque até acredito que se cá nevasse fazia-se cá esqui em melhores condições…

A vantagem de estar num país diferente é o facto de não o conhecermos tão bem como o nosso e podermos sempre passear e conhecer coisas novas. E assim fomos para os Picos da Europa, que é mesmo ali ao lado. Ainda bem que não haviam esquis, porque na certa não tínhamos passeado e ficava sem saber da magnitude do que são os Picos da Europa. E o deslumbre das suas paisagens.

Não vou descrever aqui os Picos. Vão lá… É mesmo ali ao lado! Só vos digo que vale a pena… Se gostarem de natureza com montanhas, desfiladeiros, lagos e albufeiras, neve e muita água.

Aliás água sob todas as formas foi o que não faltou no passeio. Desde neve nas bermas com mais de um metro de altura, a chuva e a neve que começou a cair quando passámos o Puerto antes da descida para Riaño, onde parámos para ver uns ninhos de cegonha no meio da albufeira...

Ah! Para acabar o dia fomos jantar a um pueblo que se chama Valdehuesa e que tem um Mesón chamado La Forqueta e que tem uma sopa de truta que é de chorar por mais. E, no fim servem um chopétin que se quiserem podem acompanhar com um cafétin. Aconselho vivamente...

Na segunda [3 de Março de 2003] acordámos mais cedo, pois não queríamos deixar os nossos esquis por mãos alheias. E conseguimos chegar à estância a tempo de sermos servidos com botas, esquis e bastões próprios para a nossa dimensão e começar a esquiar sem ter que esperar mais pelo teleférico (puxa-rabos) que a descer a pista mais simples de todas.

Mas foi por pouco tempo. Uma classe de miúdos na escola de esqui veio e ocupou a pista e o puxa-rabos do pessoal. De repente descer a pista de 130 metros em linha recta e com uma inclinação ridícula, passou a demorar menos de um terço do tempo necessário para passar duas vezes pelo mesmo ponto. Estava a tornar-se insuportável, como tínhamos visto no dia anterior.

E se nos aventurássemos nas pistas mais difíceis? Bem! A verdade é que o salto qualitativo era algo elevado e mal por mal decidimos experimentar a pista verde (fácil) da parte superior da estância. Fomos de autocarro e subimos no teleférico (agora de cadeira e digno do nome de teleférico). Mas não sem antes a Cláudia resolver abalroar os vizinhos da frente da fila do teleférico, por não conseguir travar... Não sei quantos de vocês já esquiaram mas devem saber o quão fácil é não conseguir travar nos primeiros tempos e como é fácil levar alguém pela frente. Foi um fartote de rir! Assim como foi um fartote de rir a Cláudia a sair da cadeira e cair... Como é normal!

Mas, se a pista verde lá de baixo estava superlotada, a lá de cima estava insuportável. Mas valeu a pena subir no teleférico e apreciar a paisagem, mesmo que o frio apertasse enquanto se esperava pelo puxa-rabos para novamente se fazer 140m de uma pista ridícula.

Desistimos das pistas oficiais e partimos à aventura pela pista que faz a ligação entre as duas partes da estância. Mas antes ainda encontrámos a Cláudia e o Eduardo que conhecemos em São Tomé e a Milena que andou connosco na universidade. E ainda chocámos com uma larga centena de portugueses que são a maioria, se pensarmos que os Leoneses e os Asturianos não são espanhóis.

A verdade é que aquela pista não oficial, mas que consta do panfleto da estância com uma dificuldade média-alta (não vi aonde) foi o melhor do dia. Garanto que se voltar a San Isidro só faço aquela pista e subo de autocarro que regra geral anda mais vazio que os meios mecânicos.

Foi um fartote de rir! A Cláudia atirava-se para o chão e eu caía. Ríamo-nos sozinhos com os disparates e as façanhas de que éramos capazes encima daqueles esquis endiabrados. Claro que éramos ultrapassados em todas as rectas, curvas, descidas ou subidas por miúdos que com menos de metade da nossa idade faziam mais de o dobro do que nós a andar de esqui ou snowboard. Mas estávamos felizes...

Ainda tiramos umas fotografias para a posteridade e fomos entregar o material com quase uma hora de atraso, mas lá como cá a tolerância é uma qualidade importante. Foi um alívio tirar aquelas botas de quilos e castradoras de movimento e voltar a calçar umas botas normais... Os ossos agradeceram! Até com uma pelada na perna fiquei da bota!

Voltámos ao nosso hostal em Boñar, cheios de calor (esteve sol o dia todo), contentes com um dia bem passado a (tentar) esquiar e confiantes de que aquelas coisas que se diz de se ficar todo partido era só para quem esquiava a sério. Pois! Pois! Ainda por cima não havia água quente. Tinha acabado e era preciso esperar "un rato". Se esperava mais algum bocado adormecia mesmo antes de jantar porque afinal estava moído.

Encontrámos um tasco bacano com raciones. Não me lembro o nome, era bar qualquer-coisa, ficava lá mesmo no centro de Boñar, julgo que junto à igreja, mas aquilo estava tudo em obras. A verdade é que não vi o nome quando entrei e já não conseguia ver quando saí. O homem pôs uma garrafa de vinho na mesa para irmos bebendo com as raciones e disse que só pagávamos o que bebêssemos... Pois adivinharam, bebemo-la toda! Não era nenhuma maravilha, mas acompanhar uns champiñones, uma bonita e umas goelas de vaca, que não me lembro o nome, caiu que nem ginja... Ou que nem vinho!

Foi uma bela noite de Carnaval! Ainda fomos ao café ter com a Milena e o amigo, mas eles não ficaram muito tempo, porque esses tinham mesmo adormecido e ainda não tinham jantado. Nós ainda bebemos um digestivo, que como disse a empregada "En españa es así" estava muito bem servido. Tão bem servido que em Portugal pelo dobro do preço bebia um terço do Whiskie. A verdade é que antes da meia-noite espanhola já dormia... De luz acesa!!!

No dia de Carnaval [4 de Março de 2003] voltámos para Portugal. Passámos o Montesinho e parámos em Bragança, mas não vimos muito, porque queríamos chegar a Vila Real para ver as nossas sobrinhas de novo. Mas havemos de voltar e nessa altura eu conto como foi...



Índice: Página I2 Col. 1
Próxima Crónica: Página D4 Col. 1