SEXTA-FEIRA, 23 DE JUNHO DE 2000 C103
P˘r-do-Sol na Disneyland - Fotografia de Rui Gonšalves

Este é o fim de semana das comemorações do Orgulho Gay em São Francisco. Mas aqui como todos têm direitos iguais, a parada de domingo chama-se Gay, Lesbian, Bi and Trans Pride Parade. Ainda bem que não existe o dia das comunidades residentes nos Estados Unidos, porque senão iria ser uma confusão. E já agora, porque é que os Gays estão primeiro que as Lésbicas? E estas antes dos bissexuais, que por sua vez estão antes dos transexuais? Será que é por ordem de número de filiados na associação? Realmente vêem-se mais gays, mas e daí?... As lésbicas também têm os mesmos direitos e os transexuais, que foram a Paris e vieram homens diferentes, não têm os mesmos direitos que os outros? Ahm? Isto já parece a história do leite que se chama meio-gordo e devia de se chamar meio-magro...

Mas isso não interessa, a verdade é que é o fim-de-semana mais colorido da cidade e para comemorar isso e o facto de termos entregue o trabalho do ICEP, esta semana, e que nos privou da convivência mútua durante algumas semanas, iremos ter uma festa em casa do João e do Jorge. Se ainda se lembram a última festa foi um sucesso e esta promete, pois temos que ir vestidos a condizer com a época Disco ou do verão do amor... Ou seja, as épocas mais kitch e coloridas da nossa história recente. Pelo entusiasmo que tenho visto vai ser um sucesso.

Fiquem atentos às próximas crónicas e fotografias.

Mas no entretanto vou-vos contar como é que foram os primeiros dias em Los Angeles, mais propriamente em Anaheim, Orange County.

Segunda-feira, 12 de Junho de 2000

Depois de ter dormido apenas umas horitas de sábado para domingo e de me ter deitado um bocado tarde na noite anterior, acordei às 7h da manhã pois o meu voo era muito cedo.

O Pedro levou-me ao aeroporto depois de deixar a Júlia em South San Francisco. Obrigado Júlia e Pedro por tudo.

Quando entrei no aeroporto faltavam cerca de 40 minutos para o meu voo e a fila no check-in da American Airlines, a companhia pela qual eu ia viajar, assustava o mais calmo dos calmos. Digamos que pelo andar da carruagem eu iria apanhar o voo... no ar.

Andava ali aos papéis a ver o que havia de fazer e um tipo que estava a pedir, ali ao lado, no guichet reservado a instituições de caridade e sem fins lucrativos, que existe em vários sítios no aeroporto, chamou-me. A minha primeira reacção foi de dizer que não e ir na direcção contrária, porque estava cheio de pressa, mas ele insistiu e disse que me podia ajudar. Lá fui ouvir o que ele tinha para dizer. Ele lá me explicou que andava a pedir para uma casa que ajudava órfãos e meninos de rua e que ele próprio tinha sido criado naquela instituição. E eu lá lhe expliquei que o meu ordenado era muito baixo e que não podia colaborar com ele, porque aliás só tinha notas de $20 e não lhe ia dar dois dias do meu trabalho. Ele compreendeu e disse-me baixinho que havia um check-in na parte de fora do aeroporto e que ninguém o usava porque ninguém sabia... E pelos vistos, a maioria, iam continuar sem saber.

Fiz o check-in em dois minutos, pois à minha frente estava apenas uma senhora. No fim do check-in e como não dei gorjeta ao tipo ainda ouvi um obrigado com maus modos. Só me apeteceu lhe dizer que com aqueles modos não levava gorjeta, mas não me quis chatear.

Entrei no avião 10 minutos antes dele partir. Nos Estados Unidos os aviões são mais ou menos como os nossos comboios. As pessoas viajam tanto de avião que existem tantos voos como comboios e a horários fixos. Aliás pode-se comprar bilhete na hora, sem reservas, e na maioria das vezes sem problemas. E se não se apanhar um avião, provavelmente tem-se outro nesse mesmo dia e para o mesmo destino. Mas às vezes existem alguns tipos mais apressados e é normal ouvir-se nos aeroportos a pedirem para disponibilizar lugares em certos voos e a oferecer dinheiro e outros bilhetes por eles. Mas no meu voo não houve esse problema, porque até ia meio vazio, o que me permitiu ir à janela do lado virado a terra, às praias e às montanhas.

A vista era demais. Levantámos voo em direcção a norte e o avião virou a Sul sobre o mar a Oeste de São Francisco. Via-se a cidade e Silicon Valley... Aquilo é mesmo plano e, do ar, parece que tem uma textura uniforme, com as ruas todas paralelas e perpendiculares. Depois foi seguir a costa até Santa Bárbara em que deixei de ver o mar porque sobrevoamos terra e porque apareceram umas nuvens, que só desapareceram já muito próximo de Los Angeles. É impressionante ver as montanhas do ar. Já tinha visto, mas nunca tinha lhe dado tanta importância. Parece um bocado de papel que foi amarrotado e os caminhos pelos picos só me faziam lembrar a Lousã e a minha Vaynessa, coitada, que estava fechada nos arrumos da cave.

Apesar de o voo estar meio vazio eu tinha uma companheira de viagem de meia idade e que lia uma pilha de papéis sobre umas patentes a ver com redes LAN e WAN. Assim que começamos a chegar ela parou de ler e começou a conversar. Aparentemente era advogada de Boston e estava em Los Angeles por causa de umas reuniões de negócios, depois de ter passado o fim de semana em São Francisco em casa de uma amiga. Perguntou-me se eu era italiano, por causa do sotaque, porque o marido era italiano e tinha o mesmo sotaque. Foi a primeira vez que me confundiram com italianos nessa semana.

Los Angeles estava coberto com um nevoeiro meio poluído ou de uma poluição meio nevoeiro, como queiram. Não vi muito da cidade. Ainda tentei ver se via o monte onde está escrito Hollywood, mas nada. Só casas e mais casas e ruas e autoestradas até perder de vista. A praia parecia calminha e de cima parecia agradável porque aliás estava sol. Mas... Haviam poços de extracção de petróleo na baía. Poça! Com tantas séries e filmes sobre Los Angeles, como é que nunca tinha reparado naquilo. Bem, se calhar sempre esconderam, mas não eram um ou dois, eram para aí uns sete ou oito, que eu visse.

Uma hora e 20 minutos depois de ter partido de São Francisco, aterrei no aeroporto John Wayne e à saída lá estava uma estátua do actor/cowboy mais conhecido do mundo. Apanhei uma camioneta, daquelas que vai até aos hotéis todos deixar as pessoas e fui directo para o meu hotel. Bem, era mais um Inn, que é a categoria abaixo, mas não faz mal. Ainda parámos no Disneyland Hotel e mais num a deixar uns passageiros, mas por volta das 2h estava a fazer o check-in no Hotel.

Cheguei ao balcão e a tipa perguntou-me o último nome, uma vez que já tinha reserva. Eu disse que o meu nome era Gonçalves, mas que devia de estar como Goncalves. Ela ficou surpresa e perguntou-me de onde era com esse nome. Ela era brasileira e o resto do check-in foi feito em português, e já tinha todas as facilidades à minha disposição. Maravilha, país irmão! Os brasileiros aqui é mais ou menos como os portugueses em França, Suiça e Luxemburgo, fazem os trabalhos de limpeza, cozinha e recepção e aqueles que os americanos não querem fazer e não deixam os mexicanos fazer.

Bem, mas nem todas as facilidades foram concedidas, porque só tinha o quarto pago até sábado, ou seja, como tinha voo de volta no domingo, tinha que arranjar um sítio para ficar no sábado à noite. Mas porque é que eu disse que queria voltar no domigo? Se calhar eles pensavam que como era escolha minha voltar no domingo, não tinham nada que me pagar essa noite extra, uma vez que a exibição acabava no sábado à tarde. E aquele hotel, decididamente, não era o mais indicado, porque o meu quarto custava $96, no sábado à noite.

Deixei a mala no quarto e fui para o Convention Center, que ficava a cerca de um quilómetro e meio do hotel. Estava um tal calor, que depois de andar cem metros já estava a suar. Mas, agradou-me o facto de haver mais hotéis naquela rua que em Aveiro inteiro, mas também do outro lado da rua dos hotéis era a Disneyland, imaginem vocês. Lá estava uma montanha russa com o Mickey, uma montanha artificial em forma de lobo e o mono-carril, e miúdos por todo o lado. A média de idades na zona devia rondar os 13 anos, isto porque muitos dos miúdos viajavam com os avós que contrabalançavam a coisa.

Almocei um Burrito e Taco Combo, numa tasca mexicana que ficava num pequeno centro comercial de comida rápida, mesmo a meio caminho entre o hotel e o Convention Center, que passou a ser um dos pontos mais visitados durante a minha estadia em Anaheim.

Cheguei ao stand da ComView quase às 4h da tarde, depois de me ter registado como expositor na recepção do Convention Center. A ComView é a empresa com quem a EAI tem um acordo de colaboração, porque eles fazem uns écrans e monitores gigantes que são o ideal para a visualização das apresentações realizadas com o VisConcept. Era a empresa com quem eu iria trabalhar na semana seguinte.

A ComView é uma empresa israelita e como seria de esperar a maioria dos empregados são israelitas, exceptuando os empregados dos escritórios no Estados Unidos. Quando cheguei ao stand tive uma primeira visão do que seria o resto da semana. Cerca de quinze israelitas, todos a falar hebreu entre eles e preocupados em montar e sintonizar os seus sistemas de projecção. Apenas um, o Michael,  foi capaz de ter a simpatia de se preocupar com a minha presença e pôr-me à vontade.

O Michael, mostrou-me o que aparentava ser o futuro stand, onde estava o sistema da Silicon Graphics que eu iria usar e onde estava a água fresca, porque se estava calor na rua, ali dentro do pavilhão de exposições com o ar condicionado desligado e com as portas abertas, a deixar entrar o calor, estava uma brasa que não se podia sobreviver.

O tipo da Silicon Graphics ainda não tinha aparecido e eu como não queria estar a mexer na máquina deles, sentei-me a um canto com o meu portátil a escrever-vos umas crónicas e a preparar o trabalho temático para o ICEP.

Um dos israelitas usava um daqueles panos na nuca próprios da religião judaica, mas entre eles era o único. Todos eles andavam às voltas com a sintonização de cores nos sistemas e com o acerto dos monitores.

Haviam quatro sistemas de projecção montados. O do lado esquerdo do stand era um sistema de projecção frontal com seis projectores Sony, que projectavam uma imagem com cerca de 6x8 metros, num enorme écran curvo tipo cinema e que tinha uma qualidade impressionante. Mas o mais impressionante era ver como não se notava a transição das imagens projectadas pelos projectores adjacentes, e como uma imagem dividida em seis partes e projectada por seis projectores diferentes parecia tão perfeita. Principalmente a imagem de Machu Pichu, a cidade Inca.

Depois havia o sistema onde eu ia projectar o VisConcept que era formado por 12 écrans (quatro colunas e três linhas) de retroprojecção contíguos e que não tinham qualquer tipo de espaço entre eles o que dava a impressão de ser um écran enorme com 4x6 metros e com qualidade VGA. A qualidade não era nada de especial, mas a enormidade do sistema e o preço faziam da coisa uma coisa bastante boa.

Depois havia um sistema em fase de projecto que consiste em três monitores lado a lado, com uma pequena curvatura, principalmente para uso por projectistas e arquitectos, que dá uma imagem ampla e larga dos projectos.

E por último um sistema igual ao que eu ia usar, mas com apenas 6 monitores e com qualidade XGA, mas que também estava em fase de projecto, mas que dava um efeito fantástico com a transmissão dos resultados dos Lakers... Embora atrasados!

No entretanto chegou o tipo da Silicon Graphics (SGI). O tipo suava como se fosse uma fonte e segundo ele tinha demorado uma hora e meia desde o escritório até ali, sem trânsito, porque o escritório ficava do outro lado da cidade. Sim! Los Angeles deve ter uma frente de costa de cerca de 60 e tal quilómetros ou mais, e eu que estava no perímetro da cidade estava a cerca de uma hora do centro, pela autoestrada.

Não conheci muitos mais israelitas naquela tarde, pois passei o tempo quase todo a tentar configurar o sistema com o tipo da SGI, que percebia tanto daquilo como eu... Bem, um bocadinho mais, mas tive a ver os manuais com ele e tudo... Estes tipos não sabem o que é desenrascar. É impressionante! Mas os israelitas sabem, como eu fiquei a saber e em muitas coisas fizeram-me lembrar o bom sangue de quem é da zona mediterrânica e quem programa pouco e se desenrasca em situações difíceis. Os americanos têm muita dificuldade em sair de situações difíceis... Não têm instruções explicitas e perdem-se.

Ao fim da tarde e quando o tipo da SGI se foi embora, eu fui para hotel. Estava estirado e deitei-me na cama a descansar um bocado. Estava a pensar ir dar um mergulho à piscina, mas só acordei com o telefonema do Michael a dizer-me que podia ir passear de manhã porque o tipo da SGI não ia aparecer.

No entretanto como a SGI tinha mudado a máquina que supostamente iria enviar e como o número da máquina era diferente, tive que pedir uma nova licença para o VisConcept. Mas a minha ligação à Internet do hotel não estava a funcionar. O modem simplesmente não respondia ao sinal dado pelo modem do outro lado da linha e tive que ligar para o meu número em São Francisco. Era trabalho e quem pagava era a empresa, por isso... Mas os meus amiguinhos em São Francisco resolveram tirar a tarde para mandar mails e tinha a caixa cheia. Acho que demorei um bocado mais do que previa a fazer o download do meu mail.

Resolvi ir jantar, mas nas redondezas e para além do tal centro comercial de comida a cerca de 800 metros, e que aquela hora era muito longe, só tinha o MacDonalds e afins. Acabei por ir jantar a um restaurante, afinal quem pagava não era eu. Mais um daqueles restaurantes americanos com comidas e molhos que ninguém para além dos americanos se lembraria de fazer.

Mas antes disso, ainda tive tempo de presenciar o magnifico fogo de artifício da Disneyland, que pelos vistos se repete todas as noites por volta das 9h. Quem esteve no dia do encerramento da EXPO'98, sabe que aquilo ali é uma pequena demonstração de fogo de artifício... Mesmo na EXPO nos dias normais se via melhor, mas pelo menos vi algo que já não via há algum tempo e que é raro nos Estados Unidos, com as paranóias que eles têm com o fogo.

Depois de jantar, voltei para o quarto e deitei-me, mas como tinha dormido à tarde e como estava muito calor, custou a adormecer.



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