QUINTA-FEIRA, 4 DE MAIO DE 2000 C75
Golden Gate ao P˘r-do-Sol - Fotografia de Ken Pimentel

Terça-feira, 25 de Abril de 2000

Como me tinha deitado mais tarde e andava cansado, resolvi pôr o despertador para duas horas mais tarde do que é normal. Mas foi só para me enganar a mim mesmo, porque acordei à mesma hora e fiquei na cama até o despertador tocar. E vocês sabem bem o que é que acontece quando é assim... Levantamo-nos com a telha.

Ainda por cima era feriado em Portugal e não havia ninguém para me mandar umas piadas ou e-mails.

Ao fim da manhã, apareceu-me o Ken no gabinete, para me perguntar se queria ir com ele a uma regata. Claro que queria.

A regata era daquele tipo de regata para a tanga, só para o pessoal se divertir. Chama-se "Beer Can Race" por isso mesmo e nada melhor para começara a aprender a sério alguma coisa de vela.

A regata começava às 6h40m da tarde, mas para não nos atrasarmos saímos do escritório por volta das 5h15m.

Chegámos ao barco e preparámo-nos para a saída. Tirei as cobertas todas e preparei as amarras. Largámos. A princípio foi difícil descobrir qual era o barco do comité de organização, porque segundo o Ken deveria ser um barco à vela ancorado e afinal era um barco a motor.

Ao fundo da baía, São Francisco estava completamente coberta por uma densa cortina de nevoeiro, fazendo com que parecesse que estávamos em alto mar vendo o horizonte com nuvens. Já não sentia nada assim há algum tempo. E fez-me pensar que aquelas histórias que dizem que São Francisco é realmente frio, são realmente verdade. A cidade nem se via, a ponte Golden Gate só se via a metade norte. E ali onde estávamos estava calor... Pelos vistos na cidade o mesmo não se podia dizer.

Andámos às voltas a tentar saber qual eram os significados das bandeiras que continuamente eram içadas no barco. Primeiro uma cruz amarela num fundo vermelho quadrangular e uma com uma cruz vermelha sobre um fundo branco triangular. Depois uma triangular metade vermelha metade amarela... A verdade é que quando se ouviu o tiro de partida estávamos longe da partida... Mesmo muito longe e só conseguimos cruzar a linha de partida quase oito minutos depois dos outros veleiros da nossa classe, que já estavam quase a dar a volta na primeira bóia.

Rumámos atrás dos outros porque não conseguimos saber qual dos percursos preestabelecidos é que era o que devíamos de seguir. Seguimos para a bóia 17, mas nenhum percurso tinha como primeira bóia a 17. Sabíamos que uma bandeira era o número 7, mas o percurso 7 começava na bóia 2 e depois é que era para a 17. Além disso estávamos a passar a bóia a estibordo e no percurso dizia bombordo.

Mas pronto. O que interessa é participar e aprender com os outros. Assim, fomos velejando até que o vento caiu. Como vínhamos com algum balanço e porque beneficiamos de estarmos numa corrente, conseguimos apanhar o último dos barcos da classe. Pelos vistos eles também não perceberam as bandeiras, mas nós já tínhamos conseguido chegar a uma conclusão. As nossas bandeiras foram as segundas e significavam que tínhamos que fazer o sétimo percurso no modo inverso ao que está estabelecido. A bandeira triangular metade vermelha e metade amarela é um sete e a bandeira triangular com uma cruz vermelha sob um fundo branco é um ´r´ de reverse. Agora tudo batia certo.

Andámos a um nó (uma milha marítima por hora, cerca de 1,85 km/h, ou seja quase parados). Mas depois de passarmos o último ficámos entusiasmados e resolvemos acelerar e apanhar mais vento. Mas em vez de melhorarmos as nossas prestações, parámos ao mexer nas velas e no leme. Voltámos para últimos. É engraçado ser ultrapassado àquela velocidade... Quase parados.

Decidimos mudar de rota e afastámo-nos dos outros numa direcção que pensávamos haver vento. Além disso a nossa posição em relação ao vento fazia com que andássemos mais rápido que os outros. Conseguimos passar quase todos os outros veleiros mesmo tomando a rota mais longa. Além disso tínhamos umas velas maiores (que depois é descontado nas contas finais da classificação através do chamado facto handicap).

O problema agora era saber por que lado havíamos de virar a próxima bóia. E se as nossas conclusões acerca do percurso estavam erradas?

A nossa sorte é que havia um veleiro ainda há nossa frente e a virar a bóia. Virámos à bóia e estávamos em segundo quando passámos a segunda marca da corrida. Mas aí a experiência contou muito. Curvámos mal e perdemos o momento e por isso perdemos a velocidade toda, que já era pouca (cerca de 1,5 nós).

Voltámos a procurar o vento e fomos apanhando uma brisa que nos permitiu chegar a uma zona com vento, aí foi arrancar (4 nós) e ir até à meta onde chegámos na sexta posição, porque o barco é pesado e fomos ultrapassados por dois veleiros mais pequenos. Mas para quem partiu tão atrasados... Nada mau! Sexto em cerca de doze veleiros da nossa classe, na primeira corrida.

Voltámos à marina e o Ken foi-me levar a casa. Ainda passámos pelo escritório porque a coitada da Vaynessa ficou lá trancada e eu precisava dela na manhã seguinte, para me fazer chegar ao escritório.

Cheguei a casa por volta das 21h30m. Jantei o resto do Perú do almoço de segunda, li o mail e fui dormir... Cansado, mas divertido e feliz por um fim de tarde bem passado. Venham mais regatas...



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